Salve, Rainha
- Rebeca Siqueira

- 21 de mai.
- 3 min de leitura
Quando eu tinha 10 anos, minha bisavó, Bisa-Bila, me pedia para ler a “Salve Rainha” para ela. Eu não entendia o porquê de ela sempre me pedir, mas, quando descobri que ela não sabia ler, fiquei triste. Lendo para ela, aprendi a rezar; lendo para ela, aprendi a cantar. Observando-a tocar a parede quando a visão foi indo embora, percebi que o tato — que agora a mantinha em pé — já a havia levado a lugares inimagináveis e, naquele momento, era mais uma vez sua principal ferramenta.
“Tato”, de acordo com o Dicionário Online de Português, significa: sentido por meio do qual é possível conhecer e perceber a extensão, a temperatura, a forma e a consistência de algo ou de alguém, por meio do nosso próprio corpo, especificamente pelo contato com a pele. Também pode significar a sensação causada pelos corpos quando os apertamos ou tocamos; comportamento repleto de cautela; maneira sutil de se expressar; ou ainda capacidade e vocação.
Como se diz no Brasil, “quem me criou foi ela”. Minha bisa foi embora deste mundo quando eu tinha 15 anos. Ela se casou uma vez e teve uma única filha — minha avó, que eu não conheci. Minha bisa apanhou do marido; não sei ao certo se foi apenas uma vez, mas parece que sim. Seus irmãos a tiraram de casa, e ela nunca mais voltou. O marido não sabia da gravidez.
Minha bisa casou-se em uma época em que era praticamente proibido uma mulher se separar do marido. Ficou mal falada na cidade, foi chamada de todos os nomes ruins que se possa imaginar, mas sua família nunca permitiu que ela voltasse para junto do ex-marido. Hoje, vejo minha linhagem como uma bênção. Naquele tempo, os homens da família da minha bisa a protegeram e não permitiram nenhuma aproximação daquele homem.
Minha mãe me contou que o pai da minha bisa já estava acamado quando ela voltou para casa, mas, ainda assim, da rede, ele disse que aquele homem só estava vivo porque ele não conseguia mais se levantar; caso contrário, ele iria conhecer um homem de verdade. Não sei se foram exatamente essas palavras, mas foi nesse sentido.
Observando o momento em que estamos vivendo, penso nessas pessoas da minha linhagem. Não as conheci, mas carrego muito de todos eles, principalmente por conta da convivência com a minha Bisa-Bila. O que sei dessa história não é a regra, é a exceção. Eles foram a exceção em uma época em que a mulher não tinha voz nenhuma — mas eles foram a voz, os ouvidos e a proteção da minha bisa.
Eu agradeço por ter uma parte de todos eles em mim. Meu sangue celebra todas as suas vidas. Eu celebro, enalteço, respeito e agradeço por fazer parte de tantos de vocês.
Sou grata por ter sido, mesmo que por pouco tempo, os olhos da minha bisa. Sinto que poderia ter feito mais, mas eu era apenas uma criança. Sinto falta dela. Sinto falta de cheirar o cabelo dela. Eu amava o cheiro que ela tinha.
Ela foi meus olhos e a grande responsável por eu não achar normal tudo o que vejo diariamente. Minha bisa quebrou padrões. Mesmo sem saber a língua escrita, ela compreendia como ninguém a importância da língua falada e fez uso dela da melhor forma possível.
Para sempre irei me lembrar e, como uma oração, sempre a honrarei dizendo: “Obrigada e salve, minha rainha.”





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