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A Copa de 2002, os ciganos e um livro perdido

  • Foto do escritor: Rebeca Siqueira
    Rebeca Siqueira
  • 15 de jun.
  • 2 min de leitura

Hoje é 15 de junho de 2026 e eu percebi que meu exemplar de Os Ciganos sumiu. Pode parecer um detalhe banal, mas essa é uma informação relevante, considerando que tenho uma história com os ciganos que remonta à Copa do Mundo de 2002. E como a Copa está acontecendo novamente, achei que seria um bom momento para contar essa história: a minha história com os ciganos de 2002 e com Os Ciganos, de Bartolomeu Campos de Queirós.

Pois bem, senta que lá vem história! Pegou a referência?

Em 2002 eu tinha 12 anos. A Copa do Mundo acontecia no Japão e na Coreia do Sul e, por causa do fuso horário, assistíamos aos jogos por volta das cinco da manhã. Naquela época, todos os irmãos da minha mãe ainda moravam juntos. Cada partida era uma pequena festa. E, como a seleção brasileira não perdeu nenhum jogo, aqueles foram dias especialmente felizes.

Por coincidência, atrás da nossa casa, uma família de ciganos havia comprado — ou alugado, não sei ao certo — o lote que estava vazio. O fato é que eles montaram suas tendas e passaram a fazer parte da paisagem daqueles dias de Copa.

Em todas as manhãs de jogo, acordávamos com o barulho deles. Era engraçado porque alguém sempre dizia: “Os ciganos já acordaram!”. Nós ríamos. Eles eram animadíssimos. Comemoravam tudo com entusiasmo. A televisão estava sempre alta, as conversas também, e a festa parecia garantida. Naquele ano, o Brasil ganhou a Copa do Mundo e eu ganhei algumas das minhas melhores lembranças.

Nunca tive uma má impressão dos ciganos. Na verdade, nunca entendi o preconceito que tantas pessoas demonstram em relação ao povo cigano.

Anos depois, na faculdade, fui apresentada à obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Ao conhecer seus livros, descobri Os Ciganos. A forma como ele narra o olhar de um menino diante da chegada dos ciganos sempre me fez lembrar da alegria com que eles despertavam minhas manhãs de Copa.

Essas lembranças pertencem a um passado distante, mas hoje vivo um momento de reencontro com a minha espiritualidade. E, nesse caminho, tenho aprendido muito sobre os ciganos. Descobri novos mundos, novas músicas, novas crenças. Tudo o que envolve o povo cigano faz meus olhos brilharem de curiosidade e encantamento.

Entende agora por que comecei este relato quase choramingando por ter perdido meu livro?

Em uma entrevista, Bartolomeu contou que não se perdoava por ter escrito um livro inteiro sobre os ciganos — seus costumes, sua cultura, seus modos de viver — sem ter usado a palavra “sina”. Dá para acreditar?

Ele descreveu o povo cigano de forma poética, mágica e sensível, mas sentia falta justamente dessa palavra. Se eu pudesse lhe oferecer algum consolo, diria:

“Bartolomeu, está tudo bem. Ninguém percebeu.”

Na verdade, com toda a delicadeza com que você escreveu sobre os ciganos, a palavra sina só faria falta se alguém tivesse perdido um tesouro.

E eu perdi.

Será essa a minha sina?

Ou será que minha sina é justamente continuar procurando?




 
 
 

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